Em cada tema há um par de opções que domina a discussão. As duas pontas discordam entre si — e concordam numa premissa que nunca entra em disputa. Esta página mede, texto a texto, quantos operam dentro do par e quantos consideram a alternativa que o par corta fora.
O achado não é sobre qual lado vence. É que o campo de opções é estreito: em déficit público, 187 textos discutem se o ajuste vem pelo corte de gasto ou pelo aumento de receita, e nenhum pergunta se o Estado deveria fazer menos coisas. Em imposto de importação, 14 textos debatem proteger ou abrir setor por setor, e nenhum considera abertura unilateral — no país que quatro textos, em quatro mil e seiscentos, chamam de fechado.
Para cada tema: a pergunta que organiza o debate, a premissa que as duas respostas compartilham, quantos textos tomam cada lado — e quantos saem do par.
“Subir ou baixar a Selic?”
O que as duas respostas pressupõem: que uma autoridade deva fixar o preço do dinheiro
19 textos arbitram entre os dois lados.
Quem sai do par: Bruno De Conti (2), Roberto Campos Neto (2), Solange Srour (2), Guilherme Mello (2), Gabriel Galípolo, Edmar Bacha, Pérsio Arida, Rodrigo Zeidan. Termos que dispararam: “dolarizacao”, “padrao ouro”.
“Cortar gasto ou aumentar receita?”
O que as duas respostas pressupõem: que o escopo do que o Estado faz esteja dado
3 textos arbitram entre os dois lados.
Nenhum texto do acervo considera essa alternativa.
“A inflação veio de choque de oferta ou de demanda aquecida?”
O que as duas respostas pressupõem: que inflação seja um fenômeno de preços a ser administrado
21 textos arbitram entre os dois lados.
Quem sai do par: Samuel Pessôa (2), Luiz Gonzaga Belluzzo. Termos que dispararam: “emissao de moeda”, “expansao monetaria”.
“Quem deve pagar mais imposto?”
O que as duas respostas pressupõem: que o tamanho da carga tributária esteja dado
Quem sai do par: Ricardo Alban (2), Simone Tebet, Michael Viriato, Paulo Guedes, Claudio Ferraz, Luiz Carlos Bresser-Pereira, Isaac Sidney, Fernando de Holanda Barbosa Filho. Termos que dispararam: “reduzir a carga”, “confisco”.
“Transferir mais renda ou menos?”
O que as duas respostas pressupõem: que a redistribuição estatal seja o instrumento
8 textos arbitram entre os dois lados.
Quem sai do par: Daniel Duque, Zeina Latif, Cecilia Machado, André Roncaglia, Rodrigo Zeidan, Solange Srour, Naercio Menezes Filho. Termos que dispararam: “produtividade”, “abertura”, “ambiente de negocios”.
“Regular mais ou regular melhor?”
O que as duas respostas pressupõem: que a agência reguladora deva existir e arbitrar
2 textos arbitram entre os dois lados.
Quem sai do par: Esther Dweck, Roberto Campos Neto, Paulo Guedes. Termos que dispararam: “abertura comercial”, “cartorial”.
“Proteger a indústria ou expor ao produto importado?”
O que as duas respostas pressupõem: que caiba ao governo escolher o que proteger
Nenhum texto do acervo considera essa alternativa.
Uma segunda leitura, por vocabulário: o texto trata a ação do Estado como solução natural (“cabe ao governo”, “falha de mercado”, “política pública”) ou como imposição sobre a pessoa (“confisco”, “coerção”, “propriedade privada”, “dinheiro do contribuinte”)? Só entram textos que usam algum marcador — a maioria não usa nenhum, e isso também é informação.
| Tema | Com marcador | Legitima o Estado | Soberania do indivíduo | Ambos |
|---|---|---|---|---|
| Tributação | 201 | 146 | 38 | 17 |
| Regulação econômica | 89 | 70 | 9 | 10 |
| Juros | 53 | 42 | 7 | 4 |
| Desigualdade e pobreza | 50 | 39 | 7 | 4 |
| Déficit e dívida pública | 35 | 24 | 7 | 4 |
| Inflação | 14 | 7 | 6 | 1 |
| Impostos de importação | 7 | 5 | 2 | 0 |
Toda obrigação econômica discutida aqui — tributo, regra, tarifa, contribuição — é imposta sob pena. Quantos textos nomeiam esse mecanismo? Conta quem usa um termo inequívoco: multa, sanção, penhora, execução fiscal, coerção, compulsório, sob pena de. Termos genéricos como “polícia” ou “força” ficaram de fora para não inflar o número.
| Tema | Textos | Nomeiam a coerção | % | Termo mais comum |
|---|---|---|---|---|
| Desigualdade e pobreza | 302 | 4 | 1.3% | coercao |
| Inflação | 462 | 7 | 1.5% | compulsori |
| Juros | 1040 | 18 | 1.7% | compulsori |
| Impostos de importação | 109 | 2 | 1.8% | sob pena de |
| Déficit e dívida pública | 514 | 9 | 1.8% | confisco |
| Trabalho e emprego | 515 | 14 | 2.7% | compulsori |
| Orçamento e gasto público | 1283 | 36 | 2.8% | compulsori |
| Tributação | 2602 | 84 | 3.2% | multa |
| Regulação econômica | 1127 | 41 | 3.6% | sob pena de |
| Previdência | 236 | 12 | 5.1% | multa |
Em 8190 textos sobre obrigações que só existem porque a lei as impõe, 227 (2.8%) nomeiam o instrumento que as impõe. A obrigação aparece como dado da natureza; a multa, a penhora e a execução fiscal que a sustentam ficam fora do texto.
Para cada tema, o par de opções e a premissa foram fixados antes da medição, e estão escritos no código. Quem discordar do par pode trocá-lo e reprocessar — o critério é público.
A base de cada tema são os textos que acionam pelo menos um lado do par. Texto que só noticia um número não entra: ele não enquadra nada.
Um texto conta como fora do par se usa um termo inequívoco da alternativa cortada (“dolarização”, “emissão de moeda”, “abertura unilateral”). Mencionar não é defender: o texto pode citar a alternativa para rejeitá-la. O dado diz que ela entrou no campo de visão — não que foi adotada.
Ausência de menção não prova ignorância nem má-fé. Prova que, no acervo medido, a alternativa não é parte do repertório com que o assunto é discutido.