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Análise de conteúdo · acervo da Folha de S.Paulo · fontes abertas do polo de referência

A cobrança sem quem cobra

Em 4.654 textos do debate econômico publicados pela Folha entre 2024 e 2026, o vocabulário da obrigação aparece 277 vezes na forma de quem sofre a ação: cobrado, tributado, taxado, descontado, retido, autuado, multado, obrigado. Em 272 dessas 277 a frase não diz quem cobra. Governo, Estado, União e Receita não aparecem uma única vez como sujeito de obriga, confisca, multa, autua ou penaliza. O dinheiro sai do bolso de alguém e o agente que o retira desaparece da gramática. Esta página mede isso — tema a tema, autor a autor — contra um polo de referência que escreve o contrário, e diz o que cada número não sustenta.

4.654textos da Folha (2024-2026) que citam as 231 pessoas do censo
9,2%nomeiam a coerção pela régua v2 (430 textos); 7,1% descontando gatilhos penais e políticos
0,8%afirmam o direito individual (36 textos)
272 de 277passivas de cobrança e obrigação em que o agente não aparece na frase
0ocorrências de governo, Estado, União ou Receita como sujeito de obriga, confisca, multa, autua ou penaliza
0,20 a 0,55precisão da régua estimada por três juízes (recall 0,93 / 0,77 / 0,87)

O bloco da obrigação e o bloco da moeda

Recortando os temas por exclusão mútua, os 2.709 textos de temas de obrigação (tributação, regulação, previdência, trabalho, importação, comércio) nomeiam coerção em 10,7% dos casos (290 textos; IC95 9,6-11,9), contra 4,5% dos 861 textos de política monetária (39 textos; IC95 3,3-6,1). A distância maior está na segunda medida: 4,4% dos textos de obrigação tratam a lei como dado, contra 0,9% dos monetários — razão de cerca de cinco para um. Excluindo também o tema Política de ambos os blocos, o padrão se mantém (9,9% contra 4,7% em coerção; 4,2% contra 1,0% em lei como dado).

Inflação é o tema que menos nomeia qualquer uma das três coisas ao mesmo tempo: 3,0% de coerção (14 de 462), 0,4% de lei como dado, 0,2% de indivíduo. Nos 462 textos, a expressão "imposto inflacionário" aparece em 1, "confisco" em 2 e "corrói" em 2, enquanto "poder de compra" aparece em 27. A única ocorrência de imposto inflacionário está numa reconstituição histórica do Plano Real, descrevendo o financiamento do desequilíbrio fiscal. A perda de renda pela inflação é tratada, neste corpus, pelo vocabulário do preço, não pelo da obrigação.

A leitura que a tabela suporta é relativa, entre temas, e não absoluta: com precisão estimada entre 0,20 e 0,55, a prevalência real de coerção econômica nomeada fica na faixa de 2% a 5,5%.

Teman textos% coerção (IC95)% coerção sem gatilho penal/político% lei como dado% indivíduo
BLOCO obrigação (excl. monetários)2.70910,7 (9,6-11,9)—4,40,8
BLOCO monetário (excl. obrigação)8614,5 (3,3-6,1)—0,90,3
Todos4.6549,27,13,40,8
Tributação2.60111,1 (10,0-12,4)9,04,60,7
Política1.51211,6 (10,1-13,4)8,34,00,4
Orçamento e gasto público1.2839,0 (7,5-10,7)7,24,10,7
Regulação econômica1.12710,5 (8,8-12,4)8,53,20,7
Juros1.0405,5 (4,3-7,0)4,62,40,6
Política monetária e Banco Central8216,7 (5,2-8,6)5,60,90,1
Mercado financeiro5677,8 (5,8-10,3)7,14,10,7
Trabalho e emprego5158,0 (5,9-10,6)6,24,31,0
Déficit e dívida pública5145,3 (3,6-7,5)4,14,11,0
Inflação4623,0 (1,8-5,0)2,20,40,2
Crescimento e produtividade3984,3 (2,7-6,7)3,83,52,0
Crédito e bancos32618,1 (14,3-22,6)16,94,00,0
Ambiente e clima3135,1 (3,2-8,1)3,82,92,2
Desigualdade e pobreza3024,6 (2,8-7,6)3,32,61,7
Previdência23614,0 (10,1-19,0)12,36,81,3
Comércio internacional21913,2 (9,4-18,4)9,11,40,9
Indústria e política industrial21413,1 (9,2-18,3)11,25,61,9
Agronegócio2077,7 (4,8-12,2)6,32,41,4
Educação2078,7 (5,6-13,3)6,34,31,0
Tecnologia e IA17111,7 (7,7-17,4)9,90,61,2
Saúde15211,8 (7,6-17,9)9,92,60,7
Energia e petróleo1338,3 (4,7-14,2)6,03,00,0
Câmbio e setor externo1245,6 (2,8-11,2)4,00,80,8
Impostos de importação10817,6 (11,6-25,8)10,20,90,0
Temas com n<100 (Abertura comercial, Índice de liberdade econômica, Habitação, Externalidades, Finanças pessoais, Livre escolha individual, Criptoativos, Não classificado)18 a 84 cadasuprimidos: IC de 20 a 30 pontos de largura———
“Cumprir o teto não é uma escolha. Está na Constituição.”Affonso Celso Pastore, em retrospectiva de entrevistas (Folha) · fonte
“financiados pelo imposto inflacionário”Cecilia Machado (Folha) · fonte

Onde a coerção mais aparece, o obrigado é uma instituição

O ranking de percentual de coerção não é liderado pelos temas em que a obrigação recai sobre o leitor. No topo estão Crédito e bancos, 18,1% (59 de 326), Impostos de importação, 17,6% (19 de 108), Previdência, 14,0%, e Comércio internacional, 13,2%. Em Crédito e bancos, o gatilho mais frequente é "liquidação extrajudicial" (6 textos), do caso Banco Master: o Estado agindo sobre um banco. Em Impostos de importação, 8 dos 19 flags têm gatilho penal ou político e o termo mais frequente é "trabalho forçado" (4), que descreve a condição do produto importado.

Descontando gatilhos penais e políticos, Impostos de importação cai de 17,6% para 10,2% e Comércio internacional de 13,2% para 9,1%, enquanto Crédito e bancos quase não se move (18,1% para 16,9%). Em Tributação, o maior tema do corpus, o gatilho mais comum é "sonegação" (26 dos 289 flags), que nos textos lidos aparece como parâmetro de arrecadação — o mecanismo é descrito pelo ganho de alíquota que permite. Descontando os 54 flags de gatilho penal ou político, Tributação cai de 11,1% para 9,0%, pouco acima da média do corpus.

“decisão do BC de decretar a liquidação extrajudicial do Banco Master”Blog C-Level Plano Brasília (Folha) · fonte
“resultado de uma investigação sobre falhas no combate à importação de produtos feitos com o uso de trabalho forçado”Mônica Bergamo (Folha) · fonte
“reduzem a sonegação e permitem uma alíquota cerca de três pontos percentuais abaixo do que seria alcançado sem as novas tecnologias”Blog Que imposto é esse (Folha) · fonte

A cobrança sem quem cobra

A medida gramatical é independente do léxico. Buscando verbos de cobrar e obrigar na voz passiva ou no futuro impessoal — cobrado, tributado, taxado, descontado, retido, arrecadado, autuado, multado, penalizado, obrigado — há 277 ocorrências nos 4.654 textos. Em 5 delas (1,8%) o agente aparece logo em seguida: pelo governo, pelos estados, pela Receita. Nas outras 272, o sujeito da frase é o imposto, a alíquota ou o próprio obrigado. São 225 textos (4,8% do corpus) com pelo menos uma passiva sem agente, contra 5 com pelo menos uma com agente.

As construções que dispensam o agente formam cinco famílias e cobrem 384 textos, 8,3% do corpus. A forma inversa — um ente estatal como sujeito gramatical de um verbo de cobrar, obrigar ou punir — aparece em 43 textos, 0,9%, e os verbos que sobrevivem são contábeis: taxa ou tributa 13, arrecada 11, cobra 7, impõe 5, exige 4, proíbe 3. Governo, Estado, União, Receita ou fisco como sujeito de obriga, confisca, multa, autua ou penaliza: zero ocorrências. E nas cinco passivas com agente expresso, o agente entra para repartir competência federativa, não para nomear força.

Família de construçãoForma típica medidaTextos% dos 4.654OcorrênciasTextos autorais (de 745)
Passiva/futuro sem agente"será cobrado", "passa a ser tributado", "incide sobre"1322,8%16214
Lei/norma como sujeito"a lei prevê", "a Constituição estabelece", "previsto em lei"962,1%10316
Dever do próprio obrigado"deve pagar", "terá de recolher", "precisa declarar"861,8%9613
Modal impessoal"é obrigatório", "obrigatoriedade", "fica obrigado"541,2%636
Sujeição"está sujeito a", "sujeitos a multa"531,1%602
União das cinco famílias (sem agente)—3848,3%—47
INVERSA: Estado como sujeito de verbo de cobrar/obrigar"o governo arrecadou", "o Estado arrecada", "a Receita exige"430,9%435
INVERSA: passiva com agente estatal expresso"o ITBI é cobrado pelos municípios"50,1%50
Verbos de força com o Estado como sujeitoobriga / confisca / multa / autua / penaliza00,0%00
“o imposto será cobrado independentemente da destinação”Folha, blog Que Imposto É Esse (citando o texto constitucional) · fonte
“Todas as pessoas que ganham acima de R$ 50 mil mensais serão alcançadas pelo Imposto de Renda Mínimo?”Folha, Mercado · fonte
“O ITBI é cobrado pelos municípios e pelo Distrito Federal”Folha, Mercado · fonte

Quem é o obrigado

A medida "trata a lei como dado" foi desenhada para captar a obrigação que recai sobre a pessoa, mas conta junto a obrigação que recai sobre o Estado. Nas 82 ocorrências de "é/são/foi/ficam obrigado(s) a", classificadas pelo contexto de até dez palavras à esquerda: Estado ou ente público 22, empresa, banco ou investidor 14, pessoa física 7, indeterminado 39. Quando dá para saber, o obrigado é três vezes mais o próprio poder público do que uma pessoa.

Nos textos assinados o desequilíbrio é maior. Lendo o parágrafo de cada um dos 24 gatilhos de lei como dado nos textos autorais, em 17 o obrigado é o Estado (União, Tesouro, governo, Judiciário, legislador), em cerca de 4 é a empresa ou o banco e em cerca de 3 é o contribuinte. Os dois maiores marcadores da régua ilustram: Laura Muller Machado dispara quatro vezes pela construção "a Constituição estabelece" um direito social que o Estado deve garantir; Marcos Lisboa, quatro vezes por despesas públicas que a lei impede de reduzir. E quando a obrigação tributária do indivíduo aparece nessa forma, costuma aparecer negada.

Entre os temas com n≥200, o maior percentual de lei como dado é Previdência, 6,8% (16 de 236), seguida de Indústria, 5,6%, Tributação, 4,6%, Trabalho, 4,3%, e Educação, 4,3%. No extremo oposto, Inflação 0,4%, Tecnologia 0,6%, Câmbio 0,8% e Política monetária 0,9%.

“os dinheiros que o governo federal é obrigado a repassar para as cidades”Vinicius Torres Freire (texto autoral, Folha) · fonte
“por força da lei, não podem ser reduzidas. Muitas não podem ser alteradas nem por emendas à Constituição.”Marcos Lisboa (texto autoral, Folha) · fonte
“restituições automáticas para quem não é obrigado a declarar”Folha, Mercado · fonte

Os 745 textos assinados

Apenas 17 das 231 pessoas do censo têm texto assinado no acervo da Folha, somando 745 textos; os outros 3.909 são redação do jornal. A taxa de coerção nomeada é 4,6% nos autorais (IC95 3,3-6,3) e 10,1% nos não autorais — o número agregado é puxado pela cobertura jornalística, não pela escrita dos economistas. Os quatro autores com maior taxa disparam a régua por termos de procedimento: autuações, Carf, dívida ativa, execução fiscal, devedor contumaz, sonegação, multa, "sob pena de". Lidos os 34 gatilhos de coerção dos textos autorais, nenhum descreve o tributo como subtração sem consentimento e nenhum nomeia o obrigado individual sob ameaça de pena.

O padrão não acompanha a linha política. Entre os 12 autores com n≥30, a correlação de Spearman entre eixo_gov e percentual de coerção é +0,13; entre eixo_estab e coerção, -0,12; entre est_autoridade e coerção, -0,27 — nenhuma se distingue de zero com 12 pontos. Solange Srour (eixo_gov -3, ortodoxa) tem 0% em 70 textos; André Roncaglia (eixo_gov +3, heterodoxo) tem a maior taxa, 11,8% em 34. Os ICs dos 12 se sobrepõem entre si: nenhuma linha da tabela é um ranking.

O léxico do polo praticamente não existe nesses 745 textos. "Direitos individuais", "direito individual" e "liberdade individual" aparecem em 0 textos; "imposto é roubo", 0; "coerção", "coercitivo" ou "coagir", 1 — e ali é citação sobre a obra de Maria da Conceição Tavares. "Confisco" aparece em 3 e em nenhum designa tributação corrente (plano Collor, Guerra Civil americana, taxonomia de calote soberano). "Compulsório" aparece em 12 e designa FGTS, recolhimento da poupança, educação básica e aposentadoria compulsória como punição.

AutorTextos autorais% coerção (IC95)% lei como dado (IC95)% indivíduo (IC95)eixo_goveixo_estabEscola
Vinicius Torres Freire1005,0 (2,2-11,2)2,0 (0,6-7,0)0,0 (0-3,7)+2+3,5Social-democrata
Marcos de Vasconcellos854,7 (1,8-11,5)3,5 (1,2-9,9)0,0 (0-4,3)-2-0,5Mercado
Braulio Borges832,4 (0,7-8,4)1,2 (0,2-6,5)0,0 (0-4,4)+2+3,0Heterodoxo pragmático
Samuel Pessôa763,9 (1,4-11,0)6,6 (2,8-14,5)0,0 (0-4,8)-2+0,5Ortodoxo
Solange Srour700,0 (0-5,2)1,4 (0,3-7,7)1,4 (0,3-7,7)-3+0,5Ortodoxa
Cecilia Machado623,2 (0,9-11,0)1,6 (0,3-8,6)1,6 (0,3-8,6)-2+0,5Ortodoxa
Laura Muller Machado611,6 (0,3-8,7)8,2 (3,6-17,8)0,0 (0-5,9)0+3,5Institucionalista social
Marcos Mendes508,0 (3,2-18,8)2,0 (0,4-10,5)2,0 (0,4-10,5)-3-0,5Ortodoxo liberal
Rodrigo Zeidan468,7 (3,4-20,3)0,0 (0-7,7)2,2 (0,4-11,3)0+1,5Liberal heterodoxo
André Roncaglia3411,8 (4,7-26,6)0,0 (0-10,2)5,9 (1,6-19,1)+3+3,5Heterodoxo
Ana Paula Vescovi333,0 (0,5-15,3)0,0 (0-10,4)0,0 (0-10,4)-2+0,5Ortodoxa
Marcos Lisboa319,7 (3,3-24,9)12,9 (5,1-28,9)0,0 (0-11,0)-3-0,5Ortodoxo reformista
TOTAL autorais (17 autores)7454,6 (3,3-6,3)3,2 (2,2-4,7)0,9 (0,5-1,9)———
Folha não autoral (referência)3.90910,13,50,7——cobertura da redação
“Esse tribunal anuncia metas ambiciosas de autuações e de arrecadação.”Marcos Lisboa (Folha) · fonte
“A lei 13.988/20 permite a negociação com devedores de dívida ativa ou com contribuintes em disputa com a Fazenda”Marcos Mendes (Folha) · fonte
“as "relações de coerção e consenso entre os EUA e o resto do mundo"”André Roncaglia (Folha) · fonte

O vocabulário da força existe e descreve outra coisa

Contagem de textos com pelo menos uma ocorrência, nos 4.654 com rodapé cortado: imposto 817; obrigatóri- 274; carga tributária 158; sanções 129; multa 115; sanção 68; penaliz- 65; punição 64; obrigado a 58; multas 40; compulsóri- 38; punir 34; sonegação 33; penalidade 29; sob pena de 24; confisco 16; coerção 13; extorsão 8; dívida ativa 6; uso da força 6; coercitiv- 5; autuação 5; execução fiscal 5; sonegar 4; confiscar 3; bloqueio de conta 3; expropriação 1; penhora 1. Zero para "auto de infração", "imposto é roubo", "tomado à força", "monopólio da coerção", "extorquir" e "arrecadação compulsória".

As 64 ocorrências dos quatro termos mais fortes — coerção, confisco, extorsão, expropriação — foram lidas uma a uma. Nove são o confisco da poupança de 1990, evento histórico; a maior parte do resto é crime organizado, guerra tarifária ou coerção geopolítica dos Estados Unidos. Cerca de 10 nomeiam a força de uma obrigação econômica atual, e todas menos duas estão dentro de aspas ou atribuídas a alguém que não é o autor do texto: empresários, entidades tributaristas, um ex-secretário do Tesouro, um leitor do Painel do Leitor, um influenciador citado em coluna, um sindicalista.

A direção da nomeação é legível, mas em escala mínima: das 64 ocorrências, cerca de 10 nomeiam para criticar, 2 para justificar (um economista que defende "um Estado forte para nos libertar da coerção" e um dirigente do setor de resíduos sobre saneamento) e cerca de 52 são descrição histórica, criminal, geopolítica ou processual. Há ainda uma inversão que a régua não previa: numa coluna, um leitor atribui a extorsão ao mercado, não ao Estado.

“o confisco da poupança de milhões de brasileiros, anunciado em coletiva pela ministra da Fazenda, Zélia Cardoso de Mello”Folha, Mercado · fonte
“os EUA estarão cada vez mais dispostos a usar instrumentos de integração como mecanismos de coerção”Folha, Ilustríssima · fonte
“qualificam a proposta como calote e confisco”Folha, Mercado (fala de empresários) · fonte
“há uma extorsão praticada pelo mercado”leitor citado na coluna de Samuel Pessôa (Folha) · fonte

O indivíduo aparece 36 vezes, e por negação

São 36 textos com a flag "afirma o direito individual" em 4.654 (0,8%). Nenhum tema com n≥200 passa de 2,2% (Ambiente e clima), e Crédito e bancos (326 textos), Impostos de importação (108) e Energia (133) marcam zero. Os três maiores percentuais vêm dos três menores temas — Livre escolha individual 27,8% (5 de 18), Índice de liberdade econômica 10,4% (5 de 48) e Abertura comercial 3,6% (3 de 84) — e o primeiro é circular, porque o tema é definido pelas mesmas expressões que a régua usa; dos seus 5 flags, 3 nem são textos de economia.

Nos textos assinados são 7 casos em 745 (0,9%). Lidos um a um: dois afirmam a escolha da pessoa contra a regra (a obrigatoriedade da licença-paternidade; a escolha de carreira); dois têm polaridade invertida, com "dinheiro do contribuinte" usado para criticar subsídio público a uma privatização; dois citam "direitos de propriedade" como condição institucional de investimento; o sétimo trata da livre escolha das empresas, que é firma, não indivíduo. O único caso do corpus em que a obrigação nomeada recai sobre a pessoa e a perda de liberdade é dita conclui a favor da obrigatoriedade.

Coerção e indivíduo co-ocorrem em 16 textos no total do corpus — 11 dos 2.709 textos de obrigação e 2 dos 861 monetários —, e a medida não verifica se aparecem no mesmo argumento ou em parágrafos sem relação.

“A obrigatoriedade retira a liberdade de decidir como dividir o tempo entre o trabalho e o cuidado com o recém-nascido”Cecilia Machado (Folha) · fonte
“Sim, a privatização do ativo público, subsidiada com o dinheiro do contribuinte, é vista com naturalidade pela patrulha liberal.”André Roncaglia (Folha) · fonte
“O regulamento destina-se primariamente à autoridade fiscal, não ao contribuinte.”Blog Que imposto é esse (Folha) · fonte
“Cada um deve ser livre para fazer o que quiser, mesmo que seja tentar mais de 500 mil concursos.”Rodrigo Zeidan (Folha) · fonte

Polo de referência: Rachewsky e Beltrão

O polo é um par de autores que, segundo o levantamento do projeto, escrevem no vocabulário que o corpus quase não tem: Roberto Rachewsky (Instituto Liberal, Instituto Millenium, Objetivismo Brasil) e Helio Beltrão (Mises Brasil). São 24 textos tabulados por leitura, publicados entre 2010 e 2025 em institutos de opinião doutrinária. Nesses 24, a flag de coerção nomeada é 11 de 12 em cada autor, e a de afirmação do indivíduo é 11 de 12 e 10 de 12 — contra 4,6% e 0,9% nos 745 textos autorais da Folha.

A diferença não é de assunto: os dois lados falam de imposto. É de estrutura de frase. Beltrão define o tributo pela premissa moral e depois enumera a cadeia de execução na ordem — cartas, processos, penhoras, confiscos. Rachewsky nomeia a finalidade da coerção e põe o sujeito na primeira pessoa. Os autores do corpus, quando tocam no mesmo aparato, param no procedimento (Carf, dívida ativa, autuação) e não dizem quem sofre a pena nem sob que ameaça. Nas 277 passivas de cobrança medidas na Folha, o obrigado aparece 272 vezes sem contraparte.

O contraste está registrado como forma, sem juízo sobre qual descrição é correta — e a comparação não é like-for-like: mistura autor, veículo, gênero de texto e período. Nenhuma das 27 pessoas do censo com eixo_estab ≤ -2, faixa em que esses dois autores estariam, tem texto assinado no acervo da Folha; 24 delas só aparecem citadas.

Corpus (Folha)Polo de referência
MedidaCorpus autoral Folha (745)Folha não autoral (3.909)Rachewsky (12)Beltrão (12)
Nomeia a coerção4,6% (IC 3,3-6,3)10,1%91,7% (IC 64,6-98,5)91,7% (IC 64,6-98,5)
Trata a lei como dado3,2% (IC 2,2-4,7)3,5%8,3% (IC 1,5-35,4)25,0% (IC 8,9-53,2)
Afirma o direito individual0,9% (IC 0,5-1,9)0,7%91,7% (IC 64,6-98,5)83,3% (IC 55,2-95,3)
"direitos individuais" / "liberdade individual"0 textosnão medidovocabulário recorrentevocabulário recorrente
"coerção" a respeito de tributo, em voz própria0 textosnão medidosimsim
Período e gênero2024-2026, coluna de jornal2024-2026, reportagem2017-2025, artigo de instituto2010-2022, artigo de instituto
“Coerção para subtrair delas seu patrimônio e renda, mesmo tendo sido obtidos moral e legalmente.”Roberto Rachewsky, Instituto Liberal (página aberta e lida) · fonte
“Eu não quero um governo eficiente quando ele age para violar meus direitos.”Roberto Rachewsky, Instituto Liberal (página aberta e lida) · fonte
“Podemos perder o dinheiro do imposto, multas, juros e talvez até a liberdade ou a vida se resistirmos contra a coerção estatal.”Roberto Rachewsky, Instituto Millenium (republicação do Instituto Liberal) · fonte
“o ato da taxação não difere moralmente do roubo, pois representa a subtração da propriedade de um indivíduo sem seu consentimento”Helio Beltrão, Mises Brasil (página aberta e lida) · fonte
“O sujeito que objetar ao pagamento do imposto é implacavelmente perseguido por meio de cartas, processos, penhoras e confiscos.”Helio Beltrão, Mises Brasil (página aberta e lida) · fonte
“O estado — aparato social autoritário que detém o monopólio da coerção em dado território”Helio Beltrão, Mises Brasil · fonte

Como foi medido

O que esta página é

O corpus são 4.654 textos da Folha de S.Paulo de 2024 a 2026 que citam as 231 pessoas do censo, lidos de um cache local, com o rodapé institucional do jornal cortado antes de qualquer contagem. Três medidas foram aplicadas a cada texto — nomeia a coerção, trata a lei como dado, afirma o direito individual — e cruzadas com tema, autoria e o polo de referência. É contagem de palavras e de construções, não leitura de intenção.

O corpus

4.654 textos da Folha de S.Paulo publicados entre 2024 e 2026 que citam ao menos uma das 231 pessoas do censo do projeto, lidos de um cache local com o texto integral. O rodapé institucional do jornal foi cortado antes de qualquer contagem: sem esse corte, palavras como "fiscaliza" e "obrigado" apareceriam em praticamente 100% dos textos. Um texto pode ter até três temas, então a soma dos n por tema excede 4.654; os blocos de obrigação e monetário foram recortados por exclusão mútua.

As três flags

Um léxico ponderado marca cada texto em três medidas, por presença (pelo menos um gatilho acima do limiar), não por densidade. Nomeia a coerção: termos de força, penalidade e execução. Trata a lei como dado: a norma como sujeito ou o dever procedimental sem agente. Afirma o direito individual: escolha, autonomia, propriedade e direitos da pessoa. Cada gatilho guarda uma janela de contexto de ±120 caracteres, usada nas leituras manuais.

Autoral e citado

As taxas são sempre publicadas separadas: 745 textos assinados por 17 pessoas do censo e 3.909 de redação da Folha, onde a pessoa apenas é citada. O número agregado (9,2%) é dominado pela cobertura jornalística, e por isso não é usado como resultado sobre economistas.

Medição gramatical

Além do léxico, uma segunda passagem por regex sobre texto normalizado conta formas: passivas e futuros impessoais de dez verbos de cobrança, lei ou norma como sujeito, dever do próprio obrigado, modal impessoal e sujeição. "Agente expresso" foi definido operacionalmente como "pel[oa]/por + ente estatal ou lei" nos 70 caracteres seguintes ao particípio — por isso 1,8% é piso, não estimativa exata.

Verificação por juízes

Três juízes independentes leram amostras de 60 janelas cada. Precisão estimada: 0,20, 0,55 e 0,40; recall estimado: 0,93, 0,77 e 0,87. Ou seja, entre 45% e 80% dos casos marcados são descrição de regra, jargão fiscal ou uso penal e político, e não nomeação de coerção econômica. Toda taxa desta página deve ser lida como comparação relativa entre temas ou entre grupos, nunca como prevalência.

Da régua v1 para a v2

A v1 usava um léxico curto (multa, punição, compulsório, sob pena de, confisco, coerção, sanção, execução fiscal) em 10 temas e dava 3,2% em Tributação. A v2 ampliou o léxico, acrescentou as duas outras flags, passou a registrar o trecho de cada gatilho e elevou Tributação a 11,1%. Depois das críticas dos juízes, a v2 ganhou intervalos de Wilson em toda célula, supressão de células com n pequeno, uma coluna que desconta gatilhos penais e políticos (o total cai de 9,2% para 7,1%) e a separação entre corpus autoral e não autoral.

O que isto não prova